16.4.06

Olha, Marta!
O livro que você me deu quando fizemos um ano de namoro. Nossa, como faz tempo...

Você se lembra de como a gente se conheceu? Foi naquele baile de carnaval do clube: todo mundo bêbado, um calor infernal e eu lá num canto fumando, olhando pro teto. Acho que você foi a única alma viva que me notou; chegou de mansinho, pediu fogo e foi logo se acomodando na cadeira ao lado - você sempre foi muito assim!

E do que a gente falou, hein?
Hm, também não consigo recordar. Ah, mas deve ter sido bobagem. Nessas horas só se fala bobagem! Mas foi aí que eu, muito esperto, consegui seu telefone - e nunca mais pude tirar seus olhinhos tortos da minha cabeça...

Que besteira, Marta! Não te chamei de vesga! Você bem sabe que seus olhos sempre foram um charme. Não, veja bem, uma coisa é...Ai, meu Deus, vamos começar de novo?

Está bem, está bem, então, chega. Eu já estava indo embora, peguei tudo que tinha de pegar, o que era meu. Se acaso ficar alguma coisa para trás, você mande pelo Zequinho, ok?
Ah, e esse livro, bem, pode ficar pra você - eu nunca gostei mesmo de García Lorca.