19.3.06

Mais uma vez esse rosto. Todo dia esse maldito rosto.
Cruzar com ele, fato antes tão incidental, tornou-se há tempos minha mais pura rotina, a essência de minhas horas. Como estivesse a mim acorrentado, persegue meus passos, meus pensamentos, sempre dissimulado, fora da minha vista, mas eu o sinto e sei, mesmo sem abrir os olhos, que ele está lá.

Sagaz, espera meus momentos de solidão e se revela, nu. Eu o fito, por puro reflexo. Esse rosto, tão conhecido rosto, seus olhos parecem não se mover, visam ao vazio, à inexistência. Os lábios tortos, secos, trêmulos, me lembram de passados que deveriam ser esquecidos; nomes, apagados.

Tudo nele é disforme, confuso, imperfeito: é minha vida saltando pelas primitivas rugas, refegos de meu áspero tempo. Sua ousadia me irrita, me encara e regorgita tudo do que já provei.

Eu tenho nojo desse rosto; mas sei que ele só me segue porque assim desejo. Minha complacência faz sua oportunidade. O quero em mim, suas correntes são minhas também, ele sou eu.
Esse rosto maldito é o mais cru de meus reflexos.