De repente o telefone rompe o silêncio do fim-de-tarde. O silêncio da morte não anunciada, o silêncio mais da alma que da natureza em si, festosa em passarinhos e cigarras. Mas, de onde está, não poderia ouvir os sons exteriores; ainda que pudesse, os taxaria de ruídos. Em sua audição está somente o não-som da solidão, deitado confortavelmente no quarto abafado pela vida que dali não sai. O calor do corpo é vilão quando bem quer.
A campainha incessante o traz à verdade dos dias: há muito não ligavam para ele. De fato, deveria existir alguma razão para tanto. Buscara-a desde antes: em tormentas de ansiedade e medo, visitara amiúde o prisioneiro de seu cárcere interior e reconhecera nele a pena, mas não lhe extraíra o crime.
Ainda estremunhado, percebe aos poucos ter, além de um par de orelhas, mãos e pernas, nas quais projeta todo seu desejo por explicações. Põe-se de pé, cambaleante, e então a caminhar rumo ao som vindo do infinito, uma lâmina a escorregar no gelo exposto. Quem será?, pensa entre mil rostos, numa seleção de relevância.
Puxa o fone. Escuta.
É um outro alguém esquecido nas memórias ocas. A voz grave o confunde - entre tantos anjos anunciadores vieste tu a me trazer a resposta?
De rompante, um convite.
Ah, obrigado, mas me sinto indisposto, sabe. Melhor não. Sim, é verdade. Bem, talvez outro dia. Tudo bem.
Tlect. O telefone se recompôs docemente. Já não há palavra, já não há som. Sem o estupor da novidade, as pernas volvem calmamente ao silêncio original, como conscientes do fado irreversível.
Dentro, o prisioneiro chora: ainda não aprendeu que de solidão se sofre desacompanhado.
A campainha incessante o traz à verdade dos dias: há muito não ligavam para ele. De fato, deveria existir alguma razão para tanto. Buscara-a desde antes: em tormentas de ansiedade e medo, visitara amiúde o prisioneiro de seu cárcere interior e reconhecera nele a pena, mas não lhe extraíra o crime.
Ainda estremunhado, percebe aos poucos ter, além de um par de orelhas, mãos e pernas, nas quais projeta todo seu desejo por explicações. Põe-se de pé, cambaleante, e então a caminhar rumo ao som vindo do infinito, uma lâmina a escorregar no gelo exposto. Quem será?, pensa entre mil rostos, numa seleção de relevância.
Puxa o fone. Escuta.
É um outro alguém esquecido nas memórias ocas. A voz grave o confunde - entre tantos anjos anunciadores vieste tu a me trazer a resposta?
De rompante, um convite.
Ah, obrigado, mas me sinto indisposto, sabe. Melhor não. Sim, é verdade. Bem, talvez outro dia. Tudo bem.
Tlect. O telefone se recompôs docemente. Já não há palavra, já não há som. Sem o estupor da novidade, as pernas volvem calmamente ao silêncio original, como conscientes do fado irreversível.
Dentro, o prisioneiro chora: ainda não aprendeu que de solidão se sofre desacompanhado.